segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Compadre Besta e o compadre Sabido

O Compadre Besta e o compadre Sabido

Essa história me foi passada por minha mãe numa ocasião muito especial!
Fazendo visitas voluntárias como contadora de histórias do Grupo Prosarte no Hospital Governador João Alves, conheci um garoto de 12 anos que por seu longo período de internação, criamos um vínculo de amizade, que muita das vezes, eu ia ao hospital, não só como contadora de histórias, mas também como amiga. Ele já cansado de toda rotina de remédios e procedimentos hospitalares começou a cobrir o rosto para não vê mais ninguém. Vindo de umas das visitas contei pra minha mãe o que estava ocorrendo, que o meu amiguinho não queria nem mais ouvir os contadores de histórias, nem a história da dona Baratinha e Minhoca Lolita que ele mais gostava e ria bastante!
Foi quando minha mãe se lembrou de uma história que o pai dela contava, gostei e ensaiei para levá-la para o meu amiguinho. Quando cheguei, ele estava com o lençol na cabeça, a mãe falou pra ele: Victor é Telma, a contadora de histórias, veio aqui só para te ver. Ele continuou com o lençol no rosto, contei a história e depois fiz um relato de um fato parecido que tinha ocorrido comigo. Foi quando, devagarzinho, ele foi tirando o lençol e me olhou sorrindo. Isso aconteceu numa quinta-feira, e no domingo ele veio a falecer. Até hoje guardo no meu coração a imagem de um lindo sorriso de um anjo chamado Victor.
Há cinco anos que não conto essa história e no Simpósio internacional de Contadores de Histórias no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de contá-la e foi muito especial. Todos gostaram e meu coração sentiu paz por ter compartilhado uma história simples, mas de grande significado para mim.

Agora vamos viajar para o mundo do ERA UMA VEZ, lá numa terra distante onde moravam dois compadres que eram muito amigos...

Há algum tempo atrás, conta minha mãe, que havia perto da terra dela, Lagoa das Esperas, dois compadres: um que gostava de ouvir histórias e outro, é lógico, que amava contar histórias. Os dois iam pra roça juntos,sorrindo,cantando, e as comadres também seguiam a prosa, pois como ainda não tinham filhos, toda lida era dividida. Fazia gosto de se ver tanta união.
Como o compadre Besta adorava as prosas do compadre Sabido, convidou ele para tomar um café com cuscuz de milho ralado que sua mulher fazia melhor que ninguém.
Foi uma noite maravilhosa, o cuscuz delicioso que só a comadre Besta sabia fazer e as histórias na viola que só o compadre Sabido sabia contar. Foi uma festança, até o povo da vizinhança apareceu.
O tempo foi passando e todas as noites o compadre Sabido aproveitava a culinária da comadre Besta e o compadre Besta se encantava com as prosas do contador de histórias.
Pensando bem era uma justa troca, como diz São Paulo “dar com liberalidade e receber com gratidão.” Só que o compadre Sabido queria dar muito do que ele tinha “Seu repertório de histórias”. ETA homem que tinha histórias, histórias para o almoço, histórias para o jantar... Histórias para almoço? Pois é, além do jantar, agora vinha a fava com piaba que só comadre Besta sabia fazer.
O tempo foi passando e com o passar do tempo a nossa inteligência ou desconfiança aumenta e foi certa manhã que o compadre Besta acordou e disse: muié, eu acho que esse meu compadre está muito do “sabido”. Oiá ele vem todos os dias com sua prosa, que eu até gosto, janta, almoça... Você já viu que ele até botou banheiro dentro de casa. Acho que nós ta dando de besta, ele tá economizando comida muié.
Foi essa grande descoberta do compadre Besta que o fez arquitetar um grande plano!
Ele combinou com sua mulher de não ir pra roça, fingir que tava doente, comer mais cedo, comer de montão para encher a pança até o amanhecer do outro dia. E assim fizeram.
Lá pra meio dia, os compadres Sabidos vieram, se achegaram , o compadre contou histórias, tocou a viola, e nada do rango sair. O tempo foi passando, e meio sem jeito, disfarçadamente, eles olhavam para o fogão, e nadica no fogo. E deram duas horas, três horas, quatro, cinco, seis. O compadre Sabido já tava suando igual pano de cuscuz, a mulher a desmaiar, coitados, tantas horas só alimentado o compadre com suas histórias e a pança deles rosnado igual ao de cachorro vira-lata, não era justo, algo tinha de errado nessa história. Ele chama sua mulher no canto e diz: - muié, vamos embora que acho que o compadre “besta” virou foi “sabido”.
E os dois saíram, meio sem jeito, de mansinho, e naquela noite nem lua cheia tinha para alimentar a alma daqueles dois. Fazia dó de se ver, era de cortar o coração. Dizem que eles passaram em casa, pegaram uma mala vermelha que tinha escrito “Os contadores de histórias mais sabidos do mundo” e saíram mundo afora.
Assim me foi passada essa história, e eu só peço, um favor para quem leu: caso alguém encontre esses dois por aí, por favor, diga que minha mãe mandou lembranças e que o compadre Besta de tanto ouvir histórias aprendeu a contá-las e agora reúne todos os sábados o povo da redondeza na porta dele e que eles levam café, bolo de milho, de fubá,carne assada com farinha e que a prosa dura até o sol raiá.
Pensando bem, é uma justa troca “dar com liberalidade e receber com gratidão.” Assim nos ensina o mestre São Paulo.
FIM
Conto popular- Adaptação: Telma Costa

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Simpósio Internacional de Contadores de Histórias



Rio de Janeiro –novembro de 2011

Amei participar de um evento exclusivamente dedicado a arte de contar histórias que enriqueceu bastante a todos os sergipanos que estiveram presentes (Grupo Hannah,Prosarte,Os Trupicando e nossas amigas Cris e Mônica).
Foi uma honra participar das palestras, oficinas e a maratona de contação (24 Horas) ininterrupta com contadores estrangeiros e os melhores do Brasil.
Deixo o registro desse belo momento de aprendizado, energia positiva, amor a arte e a literatura.






quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O palhaço da vida e o sorriso da morte

Sorri de você
Sorri com você
Sorri com o tempo da gente
Sorri de nos dois dividindo o mesmo espaço
Conhecendo outros sorrisos
Sorriso de esperança
Sorriso de medo
Sorriso de fé
Podíamos montar o circo do sorriso
Seriamos os palhaços da vida
Da vida com risco
Vida sem risco
Vida com futuro
Vida sem sombras do amanhã
Montamos o palco
Ligamos o rádio
Cantamos uma canção
Canção embriagada de fé e esperança
De repente o rádio silencia
O rádio pifou
Troquem as pilhas-alguém gritou
Nada adiantou
O radio quebrou
No mesmo instante a luz do palco se apaga
Todos os sorrisos se escondem
Sinto o desespero da solidão
Uma vela ascende
Sinto calafrio
Vejo você calada
Você odalisca da minha vida
Seu rosto coberto por um véu negro
Arranco o véu da escuridão
Você nua, sem disfarce
Você agora é real
Você é a dama da morte
Que sem pedir licença
Carrega o meu sorriso
Sorriso amarelado de medo
Que parte sem tempo
De despedir-se dos sorrisos amigos

Telma Costa
Poesia inspirada no meu irmão, falecido em 5 de dezembro de 2009, classificada no 28º Concurso de Poesia Falada de Estância(Maio de 2010).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Envelhecer

No dia 1 de novembro de 2010 véspera do meu aniversário, estava no quintal da casa de Estância com meu pai, quando ele perguntou:
- Que dia é hoje?
- 1 de novembro, amanhã é 2, dia de finado e meu aniversário!
- Quantos anos você completa?
-45 anos, estou perto da 3ª idade!
- O que é isso?
Respondo:
- Entrando na velhice, depois dos 50 anos a gente entra na 3ª idade. Com quantos anos o senhor acha que a pessoa envelhece?
Sabiamente ele responde:
- Quando a gente deixa de sonhar e fazer as coisas que gosta...