sexta-feira, 29 de maio de 2020
terça-feira, 26 de maio de 2020
Ideia ou brincadeira? Por Carlos Tadeu em 1987
O prefeito de Propriá está promovendo um concurso realmente curioso, “ inédito no país”, para descobrir o homem mais feio de sua comunidade. Como a imprensa gosta de novidade, algo assim fora da rotina, tem dado muita publicidade ao referido “certame”, inclusive jornais de grande porte do país. Nada menos de 100 mil cruzados para o cara mais feio (não sei se mulher vale), incluindo aleijado ou deformado.
Pensando bem, isso é uma ideia, falta de melhor inspiração, ou ainda uma brincadeira de mau gosto? Que proveito se pode tirar em realçar esse lado pouco feliz dos seus semelhantes?
Bem se sabe que todos somos criaturas humanas, porém mortais, dotadas de um espírito eterno. O corpo físico, portanto, é transitório, passageiro, uma maravilhosa embalagem.
Muitas vezes, as pessoas podem estar feias por doenças, ou mesmo acidentes, deformações ou capricho da natureza. Não há nenhum mérito ou desmérito nisso.
Na nossa opinião, devia se destacar ou premiar, no Brasil de hoje, outros aspectos da vida, - o lado humano ou patriótico das pessoas… pessoas que gostam de servir… aqueles brasileiros mais sensíveis, que provam um grande amor à sua terra, à pátria. Dos que sentem imensa vontade de ajudar, servir, cooperar por um Brasil novo e melhor, independente de aspectos físicos. Não seria mais construtivo assim?
(1987)
Daniel Fernandes Reis- pseudônimo jornalístico e literário
Carlos Tadeu
O tempo precioso de todos nós!
Há algum tempo atrás as crianças batiam na minha porta a fim de atenção de alguém que brincasse com elas e a todas eu recebia com zelo e carinho.
Às vezes minha filha ficava enciumada e eu a abraçava, achava engraçado o seu ciúme infantil e a conquistava dizendo que todos somos filhos de Deus, carentes de atenção.
Certa ocasião uma garota que teve uma intriga com minha filha tocou em minha porta e disse: Telma posso entrar? Minha filha grita do sofá: Nãoooooo.
Eu converso com minha filha e deixo o seu desafeto entrar. Não sei se agi certo para o seu sentimento e o nosso relacionamento futuro de mãe e filha. Só sei que não sabia rejeitar as crianças que vinham a mim.
Uma dessas crianças brincando em minha casa me questionou: - Telma que bom que você tem tempo pra gente. Minha mãe é muito ocupada e não pode brincar como você.
Eu respondi: - nossa incrível a ocupação de sua mãe e gostaria de ir lá parabenizá-la por ser tão ocupada.
Abri a porta e ela ficou parada, paralisada. Eu disse: “vamos lá, quero ver o que sua mãe está fazendo.” Falei por falar. Eu já sabia que ela descansava dos serviços domésticos.
Ela sem graça falou:- Minha mãe está dormindo Telma e se eu a acordar vou levar bronca.
Então ela foi brincar com minha filha, eu fui fazer pipocas para o lanche e na certeza que ela na sua inteligência de pré-adolescente entendeu que cada um escolhe o que faz com o seu valioso tempo.
E o tempo passa e todos crescem ou morrem no meio desse caminhar e hoje eu fico a observar que nenhum deles tem um pouco de tempo para lembrar dos bons tempos da infância e tirar um pouco do seu precioso tempo para me mandar uma mensagem ou até um telefonema.
Mas eu me conformo neste tempo de pandemia, um tempo tão delicado e complexo que nos dá tanto tempo para pensar em coisas que nos trouxe alegria, empatia e até pequenas desarmonias com todos que estiveram ao nosso redor.
Penso também que o meu tempo dedicado não foi em vão e com certeza serviu para despertar o meu dom de escritora infantil e que todas as crianças que conviveram comigo fizeram e fazem parte do meu imaginário, assim como o povo de Estância serviu para as ficções do escritor Jorge Amado nos seus aclamados livros Tieta do agreste, Tereza Batista Cansada de Guerra e Capitães de Areia.
Assim aprendo que o tempo ensina e por isso sempre é bom refletir que cada um usa o seu tempo como quiser, para ser grato, reclamar o até questionar como fez o mestre Jesus no seu último ato: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
E eu agradeço a Deus por eu ter usado o meu tempo em coisas edificantes e valiosas e que no final a vida sempre está em concordância com os Seus mistérios e com as afirmações da sagrada bíblia “Portanto tudo pra Ele, por Ele e a Ele seja a gloria perpetua.” (Romanos)
Amém!
terça-feira, 12 de maio de 2020
João Nascimento: O homem e o mito
Quem conheceu João Nascimento Filho na intimidade afirma, sem medo de errar, que ele foi um grande homem, sábio, culto, estudioso de nossa cultura, mestre da vida.
Seu forte foi a cultura. Sem pejorativos. Lia, pesquisava, sabia muito - “ um poço de sabença”, como dizia Jorge Amado, em tom de brincadeira e seriedade ao mesmo tempo.
João admirava Jorge, Jorge admirava João, ambos cultos, inteligentes, geniais, evoluídos.
Jorge lamentava o João, estanciano bairrista, coitado, tão preso à terra, apegado à província, enquanto o amigo voava, crescia com sua literatura rica, seus romances “quentes” de sexo, suor e lágrimas do povo.
João Nascimento Filho, foi um dos nossos maiores jornalistas, intelectual de peso, professor, poeta, poliglota…
Mas seu maior mérito foi como chefe de família, deixando uma família linda – bem estruturada- nada menos que quatro casais de filhos lutadores, todos inteligentes, cultos, modestos, sem ostentação e vaidades , como ele fora e deixara a própria vida, como exemplo.
****
O sábio João N. F
Ele foi um gênio, um sábio,
sem exagero, mas com esmero,
um grande mestre da vida
e não sabia…
não se dava conta disso
não se preocupava com isso,
a fama e o sucesso não lhe abalaram
não lhe subiram à cabeça,
como aqueles homens tolos
(segundo Sidarta)
que se envaidecem tanto, por nada.
Mr. Nascimento Filho
o maior de todos os nossos escribas
o mais apurado cronista
e emérito jornalista
marcou também uma época
viveu bem uma fase épica
como poucos conterrâneos
fez história e foi história
na história da cultura estanciana.
Daniel Fernandes Reis- pseudônimo jornalístico Carlos Tadeu
LIVRO: CRÔNICAS DA VIDA- II
RECORDANDO SANTOS DUMONT
Há um fato curioso na vida e no invento de Alberto Santos Dumont, brasileiro genial que inventou e construiu o primeiro avião, ele próprio servindo de piloto e “cobaia”.
Ainda muito jovem, Santos Dumont sonhou voar. Um sonho fantástico, para o seu tempo e na sua cidade. Como o Brasil era ainda um país muito atrasado – no tempo do Imperador Pedro II- ele se mandou para a França e foi na agitada Paris que fez suas primeiras experiências, coroadas de sucessos, por fim.
Logo o AVIÃO ganhou o mundo e o invento do brasileiro baixinho, “raquítico”- de físico frágil e miúdo- e foi sendo aperfeiçoado e usado na
guerra, para matar e destruir e não só para a paz e o sucesso, como idealizou Santos Dumont.
É aí onde entra o sentido de nossa crônica. A deturpação dos valores, o avião foi inventado e construído para fins elevados e construtivos- ideais sadios- encurtar distâncias, transportar alimentos e doentes de regiões inóspitas, enfim, ajudar o homem na sua escalada para o bem.
Mas, o homem deturpa as coisas e passou a usar o avião para MATAR, nas guerras mais estúpidas e violentas.
Já velho e desiludido de tudo, Santos Dumont escutava os rádios ou lia as manchetes dos jornais: AVIÃO ALEMÃO bombardeia tal cidade e destrói tudo, matando centenas de inocentes…
Essas notícias se sucediam e o grande pioneiro, já velhinho, começava a ficar muito desgostoso com o seu invento:
_ Então é isso? Foi para isso que eu inventei o avião? Para matar, destruir, piorar mais esse mundo horrível???
Triste acabrunhado, ele não resistiu às novas notícias de guerra, os tremendos bombardeios de Hitler, e se suicidou!!!
(Set. 1990)
Livro: A Vida é um Tremendo Mistério Ano:2010
Crônicas de Carlos Tadeu (Daniel Reis)
segunda-feira, 11 de maio de 2020
COMO NASCEU LAMPIÃO
Conta-se que Virgulino Ferreira era um jovem honesto, trabalhador, normal. Levava a vida como todo jovem de sua cidade, no interior de Pernambuco. Estudava, também.
Súbito, sem encontrar explicação, seus pais apareceram mortos, com
as cabeças cortadas. Revoltado, foi procurar a justiça…
Eram três homens que estavam abraçados, um juiz, um delegado e um
chefe político, Virgolino aproximou-se:
-Seus doutores, mataram meu pai, mataram minha mãe, cortaram-lhe a
cabeça e enfiaram na estaca que segura a porteira.
E chorando convulsivamente:
- Eu peço, por Deus, seus doutores, peço justiça. Sei quem matou
meus pais, e sei quem é o mandante também.
Uma gargalhada, duas gargalhadas, três gargalhadas.
Chorando mais ainda, o moço voltou a implorar:
- Seus doutores, por Deus, peço justiça!!!
Mais três gargalhadas! A noite caiu. No dia seguinte, nasceu
Lampião, o “bandido” mais temido do nordeste!!!
Conta-se muitos “causos” de Lampião. Que ele foi muito violento, “
bandido sem alma”. Assaltava e saqueava vilas, aldeias, fazendas.
Tomava tudo dos ricos e distribuía parte com os pobres e com a
manutenção do seu bando.
Mas, nem sempre ele foi injusto. Certa vez saqueou uma rica
fazenda e levou todo o dinheiro, ouro, joia. Na aldeia seguinte encontrou um
padre gorducho e lhe entregou um montão de dinheiro: - distribua com os mais pobres e necessitados,
reverendo.
_ Pois não, seu Lampião- respondeu, tremendo de medo.
Mas, o padre não era muito honesto e usou mal o dinheiro. Na
volta, Lampião soube do acontecido e deu o troco. Com raiva, Lampião se tornava
feroz, agressivo, mas poupava os humildes e as crianças… Lampião exagerou,
terminando mal os seus dias metralhado pela polícia alagoana, ainda jovem.
Mas, teria ele só culpa, crimes? E a justiça, que riu da sua dor,
que aplaudiu a tragédia com seus pais?! Como Deus julgaria o Lampião??? Aí só
Cristo sabe…
(1994)
Livro: A Vida é um Tremendo
Mistério Ano:2010
Crônicas de Carlos Tadeu (Daniel Reis)
Desenho de Burzum -Gartic
FALTA DE AMOR TAMBÉM MATA
Uma viúva dedicava-se totalmente ao bem-estar de seus filhos, que eram muitos. Eles, porém, tratavam-na com indiferença.
Por falta de amor ela definhava dia a dia. Por fim, não resistindo
mais, acamou-se gravemente enferma. Compadecidos, seus filhos cercaram-na de
todo carinho.
-Fostes tão boa para conosco.
E a velha, chorando, sensibilizada:
- Meus filhos, por que não me disseram isso antes? Agora já estou
morrendo. Agora já não adianta mais. Estou morrendo à míngua de amor…
O fato realmente ocorreu, não se pode precisar nomes e detalhes.
A gratidão é uma característica do ser humano espiritualizado. A
mãe dá sempre o melhor de si e merece o nosso reconhecimento. Morre-se, também,
por falta de amor.
Não só a mãe dedicada pode morrer pela indiferença de seus filhos,
como muitos outros.
Conheci aqui uma mocinha órfã, marginalizada- a tristeza em
pessoa. Ela se queixava tanto do desprezo e desamor que a sociedade lhe dava,
só porque nasceu pobre, perdera a mãe muito cedo e não sabia, não tinha jeito
para bajular ninguém.
Uns são mais espertos, sabem fingir e “agradar”; outros não sabem,
mas nem por isso merecem menos consideração e amor que os primeiros.
Questão de temperamento, apenas.
O certo é que a joaninha foi embora, tudo aqui lhe negaram, amor,
emprego, compreensão, ela que, no fundo, tinha tanto amor e talento para dar…
É triste, deveras. O mundo está em ruína moral, decaindo em
espírito, justamente por falta de amor, de mais sinceridade no ser e viver o
cristianismo que Ele pregou. Poucos se interessam em saber COMO
VAI TEU IRMÃO, estando felizes da vida e bem favorecidas da sorte…
(1974)
Livro: A Vida é um Tremendo
Mistério Ano:2010
Crônicas de Carlos Tadeu (Daniel Reis)
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